sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Cartilha Bancário não é vendedor



BANCÁRIO NÃO É VENDEDOR!

APRESENTAÇÃO

Diariamente os bancários são convencidos pela patronal, por meio de discursos nas reuniões, informativos da empresa, cursos de formação, etc., de que devem trabalhar como vendedores. São convencidos de que “o trabalhador é quem faz seu próprio salário”, ou seja, quanto mais vender mais acesso terá a cargos e comissões mais elevadas, e assim por diante. São levados a construir um ambiente de individualismo e isolamento entre os trabalhadores.
Somos contra esse discurso. O trabalho bancário não é simplesmente um trabalho de venda. Bancários são prestadores de serviço, não apenas vendedores. Essa diferença está nos manuais acadêmicos de qualquer curso de administração ou assemelhados. Para ficar em apenas um exemplo, vejamos:
“O marketing de produtos destina-se a bens de consumo não duráveis, como alimentação, produtos de higiene pessoal, vestuário; produtos duráveis, com eletrodomésticos, automóveis, objetos de arte, moveis. Este bens tem uma característica tangível ou seja podem ser produzidos, examinados, como colocados em estoque, transportados pelo comprador antes que a transação seja finalizada com o vendedor que oferece e, eventualmente efetua a venda.”
(...)
“Os serviços são intangíveis , isto é, não é possível ver suas características antes dos mesmos serem comprados e usados pelos usuários.
Ao contrário dos produtos os serviços não podem ser colocados em " estoque" ou seja, devem ser produzidos e usados no momento da transação, por exemplo: quando um cliente perde um horário marcado no médico, o profissional não colocar em estoque a hora ociosa; da mesma forma se não houver horas marcadas o horário vazio do profissional será inevitavelmente perdido em termos de renda.
A terceira diferença entre serviços e produtos está no fato de que quem presta o serviço deverá necessariamente estar em contato com quem recebe, por exemplo: em uma boa aula de ginástica, sempre haverá um trainner e um aluno. (http://www.portaldomarketing.com.br/Artigos/Marketing%20de%20servicos.htm)”
Em resumo, na venda de um produto a relação entre comprador e o vendedor se encerra com a entrega da mercadoria. Na prestação de um serviço a relação entre o prestador e o cliente permanece ao longo do tempo. Ora, os chamados “produtos bancários” criam uma relação em que os correntistas, donos de cartões de crédito, seguros, planos de previdência, etc., permanecem freqüentando as agências bancárias e demandando atendimento dos trabalhadores. Atendimento significa trabalho por parte do bancário, cuja jornada não se resume, portanto, ao ato de vender.
O banco pressiona os trabalhadores a apenas vender, e faz de conta que o atendimento não existe. O volume de serviço é subestimado e a quantidade de mão de obra é subdimensionada. Os bancos têm cada vez menos funcionários, os quais precisam atender uma quantidade maior de clientes. Diante da insatisfação dos trabalhadores, os bancos respondem que a saída é a busca individual por melhores cargos e comissões. Nós respondemos que a saída é a luta coletiva de todos aqueles que sofrem com a constante degradação das condições de trabalho.
No texto que apresentamos a seguir fazemos a discussão sobre algumas das características do trabalho bancário nas últimas décadas. Na primeira parte, temos um breve histórico das transformações que os bancos têm imposto à categoria bancária nas últimas duas décadas. Na segunda parte, fazemos o estudo do dinheiro, a “matéria-prima” do trabalho bancário e suas funções na economia. Na terceira parte, finalmente, apresentamos alguns detalhes sobre os chamados “produtos bancários”.
A partir de um estudo científico do funcionamento do negócio bancário, buscamos fornecer elementos para a luta por melhores condições de trabalho nas agências e departamentos.
Bom estudo a tod@s e a luta continua!

Coletivo Bancários de Base

São Paulo, abril de 2011

I- ATAQUES DOS BANQUEIROS CONTRA A CATEGORIA NOS ÚLTIMOS 20 ANOS

1.1.Desemprego em massa.

Uma característica dos bancos é uma alta composição orgânica do capital, isto é, uma maior proporção do capital fixo (imóveis, máquinas, computadores, terminais eletrônicos, etc) em relação ao capital variável (salário). O setor bancário é altamente informatizado, empregando pouca mão-de-obra. Na medida em que avança a informatização de serviços, menos necessário é o trabalho vivo, prestado pelos bancários. Por isso que cada reestruturação produtiva/administrativa vem sempre acompanhada de demissões em massa.
Esse movimento foi muito intenso na década de 1990, com a abertura do mercado nacional e, ao mesmo tempo, a reestruturação produtiva das empresas. Essa mudança radical exigiu um aumento ainda maior do capital fixo em relação ao variável no conjunto da economia. Para que as empresas tivessem capital-dinheiro para investir, e financiar a reestruturação produtiva brasileira, foi necessário readaptar o sistema financeiro e os bancos. Essa adaptação se intensificou após a implantação do Plano Real, que tornou ainda obsoleta uma grande quantidade de agências e formas de atendimento de balcão. Havia a necessidade de “enxugar a estrutura corporativa”
O resultado disso foi um forte processo de demissão em massa, principalmente após 1994. Foram desencadeados diversos planos de demissão voluntária (PDVs), nos quais milhares de bancários se desligaram da categoria. Este processo foi ainda mais radical nos bancos estatais, sobretudo no Banco do Brasil. Sob o governo do PSDB, além do PDV de 1995, o BB simplesmente demitia sem justa causa.

1.2. Fusões e incorporações

Ao contrário do que pregam os teóricos burgueses, a livre-concorrência tende para a concentração de capital e ao monopólio/oligopólio. As empresas maiores compram as menores ou suas rivais derrotadas na concorrência, diminuindo o número de concorrentes no mercado e estabelecendo uma situação de monopólio/oligopólio. Com o perecimento de várias instituições financeiras no curso da reestruturação dos anos 1990, alguns bancos fecharam e outros foram adquiridos pelas instituições maiores. Nos últimos 20 anos podemos aqui citar as principais aquisições: O BRADESCO adquiriu, o BCN, FINASA, etc; o ITAÚ adquiriu o BANERJ, UNIBANCO, BANK BOSTON, o Santander adquiriu o Noroeste, o Banespa, o Real. O Banco do Brasil comprou o BEP, o BESC, a Nossa Caixa e ultimamente adquiriu 49% do Banco Votorantim.
Cada fusão/aquisição traz a necessidade de uma nova reestruturação corporativa para viabilizar retornos e maximizar lucros. Setores “redundantes” nas duas empresas precisam ser reduzidos para se enquadrar nas necessidades da nova empresa unificada. Daí a necessidade de demitir em massa, forçar aposentadorias “compulsórias”, precarizar as relações trabalhistas e impor uma maior intensificação do trabalho. Com a diminuição do número de funcionários nos bancos e a intensificação da exploração sobre a mão-de-obra remanescente, a saída foi fraudar a jornada de 6 horas, conquista histórica da categoria bancária, mediante a criação de funções de “gerência” e “assistentes” com jornadas de 8 horas.

1.3. Segmentação da categoria

A segmentação da categoria bancária é mais uma criação típica da ideologia neoliberal, sob a justificativa de “modernizar as relações de trabalho”. Trata de excluir juridicamente, mas não na prática, determinados trabalhadores dos bancos. No início, esta ficção se restringia às atividades que não eram a finalidade da atividade bancária, como serviços de copa, segurança, telefonistas, secretaria, etc. Todos os trabalhadores destes setores deixaram de ser considerados formalmente como bancários, ainda que trabalhem nos bancos e continuem a contribuir para os lucros bilionários das instituições financeiras. Essa medida serve para afundar o nível dos salários da categoria e maximizar os lucros. Os trabalhadores terceirizados recebem até ¼ dos salários dos bancários de vinculo direito.
Ainda no governo de FHC, o Banco Central baixou a Resolução nº 2.707/2000, a qual permitiu que os bancos terceirizassem atividades-fim, como processamento de envelopes de depósito e abertura de contas. Esses serviços passaram a ser feitos por trabalhadores terceirizados que recebem salários muito inferiores em relação aos bancários de vinculo direto formal.
Por último, os bancos montam estabelecimentos inteiros para conceder crédito pessoal e para atender os clientes que não têm condições de abrir contas bancárias e são por isso discriminados pelos gestores como meros “usuários”. Assim, praticamente todos os bancos possuem uma financeira especializada em empréstimos para trabalhadores que precisam pagar suas contas e resolver pendências administrativas.

1.4. Transformação dos bancários em vendedores (comerciários)

Conforme vimos, nos últimos 20 anos, os banqueiros fizeram de tudo que foi possível para afundar o nível dos salários e aumentar a jornada de trabalho. A terceirização criou uma subcategoria de quase 200.000 trabalhadores com salários rebaixados (http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:lYTU9n38bzAJ:jus.uol.com.br/revista/texto/13517/empresarios-e-trabalhadores-diante-da-regulamentacao-da-terceirizacao-no-brasil+numero+terceirizados+bancos&cd=3&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br&source=www.google.com.br).
Agora a “moda” é bombardear ideologicamente o bancário para fazê-lo acreditar que não é bancário, mas um vendedor de produtos, como se fosse comerciário. Caso os banqueiros consigam convencer os bancários de que são vendedores, isso trará desdobramentos práticos desastrosos: os bancários poderiam ser equiparados à comerciários. Isso implica em mudanças como a remuneração variável (em que as comissões por venda se tornam cada vez mais importantes em relação ao salário), trabalho aos finais de semana e feriados, jornadas infindáveis de trabalho e condições de trabalho ainda piores, salários rebaixados, etc. A meta dos banqueiros é acabar com as conquistas sociais da categoria bancária em termos de jornada, condições de trabalho, etc., de modo que os trabalhadores deixem de ser bancários, ainda que na prática todos ainda trabalhem em bancos.

II - DINHEIRO COMO MERCADORIA DOS BANCOS.

2.1. O que é dinheiro;

O dinheiro é, antes de mais nada, uma relação social que se cristaliza numa mercadoria. Na civilização antiga, o dinheiro poderia ser qualquer coisa que viabilizasse a troca entre produtos de diferentes produtores. Os trabalhadores agrícolas, pastores, pescadores, artesãos de diversos tipos, precisavam de um meio de troca comum pelo qual pudessem trocar produtos de qualidades diferentes segundo quantidades mais ou menos fixas. Esse meio de troca comum é uma mercadoria especial, que assume assim a função de dinheiro. Diversas mercadorias especiais foram usadas na função de dinheiro, como o sal, o gado, e por fim os metais preciosos como prata e ouro. O estabelecimento do dinheiro como meio de troca permitiu que todas as outras mercadorias pudessem ser reduzidas a uma quantidade determinada de dinheiro.
Com o desenvolvimento do capitalismo, o dinheiro passou a ter também a função de capital. Mas num sistema socioeconômico fundado sobre a desigualdade, a quantidade de dinheiro (meio de circulação) começava a ser um entrave para dar vazão à produção e à acumulação capitalista, seja pelo esgotamento das minas de metais preciosos, seja pelo desgastes das moedas metálicas (os valores das moedas eram medidas pelo seus pesos, o que possibilitaria a fraudes). Por isso se tornou necessário substituir os metais preciosos por papel moeda, o que veio junto com o desenvolvimento do sistema de crédito. A emissão de papel moeda tinha que corresponder a uma quantidade determinada de metal precioso depositado no Tesouro. Assim, o papel-moeda não é dinheiro, mas seu símbolo.
Não adentraremos nos pormenores da relação do papel-moeda com o seu lastro, que acabaria por desviar do objetivo central deste material. Assim, para fins didáticos, adotaremos o papel-moeda como dinheiro propriamente dito, bem como os créditos e débitos de acertos contábeis.
2.2 Funções do dinheiro: a) meio de compra e b) meio de pagamento;

Vimos que, antes do capitalismo, o dinheiro era uma mercadoria cuja única utilidade era viabilizar as trocas de outras mercadorias. Todas elas eram mensuráveis em dinheiro. Neste sistema de produção e circulação simples das mercadorias, o movimento era a seguinte: M-D-M. Traduzindo: as pessoas de posse das mercadorias excedentes, confrontavam-se comprador e vendedor. Um com dinheiro e outro com a mercadoria, no momento em que se dá a metamorfose em que a mercadoria vira dinheiro e o dinheiro se converte em mercadoria ao mesmo tempo. Mas a preocupação de tanto do comprador quanto do vendedor não era de fazer da troca um negócio. No presente caso ninguém obteve lucro com a transação. A preocupação de ambos era resolver uma questão prática da vida cotidiana numa sociedade pré-capitalista: Ambos tinham excedentes e ambos precisavam de uma mercadoria específica.
Com surgimento do capitalismo, o movimento da riqueza mudou de qualidade. Antes, o detentor da mercadoria o convertia em dinheiro para conseguir uma outra mercadoria de sua necessidade. Agora, o movimento de circulação é D-M-D’, em que D’= d + m, em que m= mais-valia ou lucro. O burguês entra no mercado com dinheiro, com o qual adquire mercadorias para vendê-las e com isso extrair da circulação mais dinheiro do que investiu. Com este montante, o burguês reinveste na produção, adquire novas mercadorias a serem trocadas por mais dinheiro, e a circulação recomeça o seu ciclo. Nesta situação de circulação simples, o dinheiro é empregado como meio de circulação, ou trocado em miúdos, um “toma-lá-dá-cá”. O dinheiro é também conhecido como meio de compra, ou seja, quando a metamorfose de dinheiro em mercadoria e vice-versa (e ao mesmo tempo) é instantânea, encerrando assim a efêmera relação comercial. Aqui não há qualquer preocupação de ambos sobre o que os detentores do dinheiro e da mercadoria vão fazer com o resultado da transação. Porém, para facilitar os nossos estudos, o meio de compra, ou meio de circulação, é o nome que se dá para o dinheiro empregado como recurso próprio para pagamento à vista, na “bucha”, “uma em cima da outra”.
Ocorre que o processo de circulação e acumulação de capital não funciona como um “reloginho” com sincronia perfeita entre oferta e procura, seja porque as mercadorias ficam distantes do mercado consumidor, seja porque o processo de produção de determinadas mercadorias demanda um longo tempo, etc. Assim, é comum que os compradores não tenham as mercadorias à sua disposição, ou ainda que as tenham, não possuem dinheiro para adquiri-las naquele momento. Manifestou-se assim a necessidade de se vender sem comprar, o que necessariamente significa que na outra ponta da transação há alguém que compra sem vender. Isso na pratica significa pagar ou receber a mercadoria antes da venda ou compra, processo que é formalizado em algum título (duplicata, por exemplo). Um atacadista compra um lote de refrigerantes diretamente da indústria, mas não dispõe de dinheiro para efetuar a transação. No meio comercial, o negócio é fechado e o produtor entrega o lote pedido de bebidas e emite uma duplicata com vencimento futuro (30 dias, por exemplo), sem ter recebido um centavo sequer no ato da entrega das mercadorias para o comerciante. O pagamento se dará no termo final da duplicata. Muitas vezes, o prazo para o pagamento leva em consideração as possibilidades de escoamento das mercadorias para que elas “se paguem”. O nosso comerciante (nas condições “normais de temperatura e pressão”) vende todo o lote de refrigerantes e com o montante obtido das vendas paga a duplicata emitida na entrega das mercadorias, já deduzidos todas as despesas inerentes (funcionários, aluguéis, etc).
Por outro lado, o industrial entregou as mercadorias, mas o dinheiro que espera obter com a venda para o atacadista só ingressará após 30 dias, sem que, no entanto, a indústria possa cessar a produção e deixar de satisfazer todas as despesas ordinárias recorrentes necessárias para permitir que se vendam mais lotes de refrigerantes. É necessário que a fábrica de bebidas tenha capital, que pode ser obtido alienando as duplicatas a receber, ou recorrendo a um fundo de reserva da fábrica (uma espécie de “poupança”), ou ainda, poderá recorrer aos empréstimos bancários. Isso também serve para o atacadista, caso ele não consiga vender o lote de refrigerantes até o vencimento da duplicata, isto é, quando as vendas “não se pagam”.
Assim, vender sem comprar e comprar sem vender significa necessariamente falarmos de crédito. E nestes casos, o dinheiro tem a função de meio de pagamento, pois uma das partes do pólo da metamorfose da circulação D-M-D’ foi feita antes de se completar o seu movimento inverso correspondente: o fabricante entrega a mercadoria (M) antes de receber a quantia correspondente pelo atacadista (D, mas face ao fabricante, é D’). Caso ambos movimentos se dessem de forma simultânea, o dinheiro teria função de meio de circulação, que foi objeto de nosso estudo acima.
O dinheiro como meio de pagamento também é usado pelo consumidor final para compras à prazo e financiamentos. Este crédito pode ser obtido diretamente com o vendedor, ou também recorrendo aos bancos mediante crédito direto ao consumidor, por exemplo. Mas nesses casos o dinheiro cumpre as duas funções e ao mesmo tempo. Os recursos levantados no banco para a compra de uma TV de plasma são meio de compra face à loja, e o banco entra no lugar que seria da loja nesta relação. Assim, as prestações a serem pagas pelo feliz proprietário do aparelho seriam meio de pagamento face à instituição financeira que concedeu o crédito
Disso se conclui que o crédito é um “milagre” do capitalismo, pois permite fazer circular as mercadorias sem que haja lastro correspondente. Isso faz com que se acelere a circulação das mercadorias e permite maior crescimento econômico... Mas esse crescimento é fictício, pois o desenvolvimento do mercado de crédito é acompanhado pelo aumento do endividamento, que é uma contradição. A sustentação deste processo é a capacidade de saldamento das dívidas. Uma vez esgotada esta capacidade pela inadimplência, interrompe-se bruscamente o processo de circulação e não há mais escoamento de mercadorias, comprometendo todo o sistema produtivo. São as crises econômicas, como esta que vivenciamos desde finais de 2007 em escala mundial.

2.3 Movimento simples do dinheiro nos bancos DD’
No item anterior começamos a ver como os bancos são importantes para o desenvolvimento do sistema de crédito e para o funcionamento do processo de circulação e acumulação do capital. Também vimos qual a função do dinheiro no processo de circulação. Agora estudaremos a relação dos bancos com o dinheiro.
Como já foi dito, o processo de circulação e acumulação não funciona em sincronia fina, como um relógio, ou guiado por uma “mão-invisível”. Muitas vezes, ainda que haja oferta e demanda, pode haver outros elementos que perturbem este processo, como quebra de safra, problemas climáticos, falta de infraestrutura, taxas alfandegárias, etc. Pode inclusive acontecer que, ao contrário, algumas (ou todas) as condições mudem favoravelmente, de forma que a oferta seja exaurida muito mais rápido do que se esperava. Assim, haverá ocasiões no processo de circulação em que determinados setores da economia terão sobra de capital-dinheiro, bem como haverá ocasiões em que determinados setores necessitarão recorrer a uma fonte externa de recursos para manter o processo em funcionamento. Desta forma, quando há sobra de capital-dinheiro, deposita-se no banco. Mas quando há falta, recorre-se aos bancos para levantar capital-dinheiro para dar continuidade ao processo. É esta entrada e saída de dinheiro que caracteriza o setor bancário: recebe e repassa. De um lado, os depositantes confiam no banqueiro para que guardem o vil metal, oferecendo uma pequena remuneração, que são os juros pagos ao poupador ou aplicador para deixar seu dinheiro investido; do outro lado, o banqueiro concede empréstimos (com garantia ou não) utilizando os mesmos recursos depositados na sólida instituição financeira, recebendo em troca um valor maior em juros.
No papel que cabe aos bancos no processo de circulação e acumulação do capital, a mercadoria utilizada é o próprio dinheiro, dentro daquele movimento D-M-D’. Como o “M” aqui é nada mais do que dinheiro, isto é “D”, então a movimentação é D-D-D’. Simplificando a movimentação acima, então temos DD’, em que D’= d+l, em que “l” é o lucro do banqueiro.
Trata-se do supra-sumo do fetiche capitalista: captar dinheiro para emprestar e fazer mais dinheiro, mediante cobrança de juros. O banco capta dinheiro barato (pagando juros baixos aos poupadores) e para “vendê-lo” mais caro (cobrando juros altos dos devedores). A diferença entre o juro que é pago pelo banqueiro ao aplicador e o juro que é recebido pelo banqueiro do devedor é chamado de “spread” bancário, é a fonte do seu lucro. É a isso que se resume o trabalho bancário de intermediação financeira. O banco não produz nenhuma mercadoria física, ele trabalha com uma mercadoria especial, que é o dinheiro. O lucro do banco, conforme explicaremos adiante, é uma parte do lucro total do setor capitalista, que é apropriado pelo setor financeiro em troca desse serviço de facilitar e acelerar a circulação de mercadorias adiantando meio de pagamento na forma de crédito.
A afirmação de que o bancário não é um prestador de serviços financeiros, mas um vendedor, não passa de um devaneio, de uma ignorância sem precedentes. Primeiro porque o banco não produz mercadorias físicas; e segundo, exatamente por isso, os bancos não produzem mais-valia. O lucro dos bancos se origina na agiotagem, na diferença entre juros pagos e juros recebidos, e não na produção ou circulação de mercadorias. Assim, a afirmação de que o bancário é um vendedor tem uma função puramente ideológica de convencer os trabalhadores a aceitar formas cada vez mais intensas de exploração.
Agora convém saber o que determina o lucro dos bancos, isto é, o juro. Do ponto de vista da aparência, basta jogar uma percentagem sobre a base de cálculo do montante e a partir daí teríamos o juro. Ocorre que não nos contentamos com as aparências. Queremos chegar à essência das coisas. Diante disso, surge outra pergunta: o que determina que num determinado tempo e espaço a taxa de juros seja “x”, “y”, ou “z” ? O que determina que alguém fixe um número como parâmetro para servir de taxa de juros?
A resposta é a taxa de lucro, ou lucratividade média dos setores produtivos de um determinado país ou grupo de países. Quanto maior é a taxa de lucro realizada pelos patrões, maior é a taxa de juros. Mas isso serve apenas para períodos de estabilidade econômica. Isso explica, por exemplo, porque as taxas de juros praticadas pelos bancos aqui no Brasil são muito maiores do que qualquer país desenvolvido, pois aqui a taxa de lucro é maior do que nos países desenvolvidos. É evidente que em tempos de crise cíclica ou estrutural (como a atual) há outros fatores que também influenciam a alta ou a baixa dos juros. Em épocas de crise, por exemplo, o dinheiro (na sua forma de meio de pagamento, ou seja, crédito) é mais escasso, de forma que as pessoas estão dispostas a pagar juros maiores para captação do capital-dinheiro, e os bancos, por sua vez, elevam as taxas de juros pelo fato do meio circulante estar escasso.
Até agora, explicamos o movimento simplificado do dinheiro nos bancos. Capta-se para depois emprestar. Com o desenvolvimento do sistema financeiro, as formas de captação e de empréstimos são múltiplas. Porém apenas vamos deter nossas atenções para as formas de captação de recursos pelos banqueiros, que podem ser públicos e privados. Por ora, não consideraremos os recursos públicos (como o Fundo de Amparo ao Trabalhador, que curiosamente é utilizado para o patrão obter lucros) e privados (como fundos de pensão). Trabalharemos com as formas de captação de capital-dinheiro surgidas no dia-dia das agências, causa de tantas doenças e sofrimentos psíquicos a que nós bancários estamos submetidos.

III – “PRODUTOS” BANCÁRIOS (captação)

3.1. Impropriedade do termo “produto”;

Nas linhas acima vimos, de forma simplificada, que os bancos captam dinheiro barato e emprestam mediante juros, auferindo, assim, um lucro. Os banqueiros não colocam a mão no bolso para fazer funcionar o seu negócio. Os recursos utilizados para tal mister são oriundos, em boa parte, de sua base própria de clientes depositários. Esta entrada e saída de dinheiro (seja para meio de compra ou meio de pagamento) se realiza por meio dos diversos serviços bancários executados pelos trabalhadores dos bancos. Logo, o nome de “produto” dados pelos gestores aos serviços prestados de intermediação financeira pelos bancários é bastante inapropriado.
Isso significa que os banqueiros e sua tropa de choque de administradores são burros? Não, pois a sua ignorância teórica esconde a esperteza prática de quererem equiparar os bancários a vendedores. A tentativa de convencer o bancário de que não é um prestador de serviços, de que não é um bancário, visa impor uma forma de relacionamento que é a mesma que vigora no comércio (remuneração variável, trabalho aos fins de semana, etc.), ou seja, impor a condição de comerciário ao trabalhador dos bancos, retirando todos os direitos conquistados com muita luta, como, por exemplo, a jornada de seis horas. Essa transformação gradual de bancários em comerciários acontece em etapas, por meio de processos como a terceirização. Ou ainda, o tratamento que classifica como bancários apenas aqueles trabalhadores que nas agências celebram o contrato de captação de dinheiro diretamente com o cliente, excluindo da condição de bancários todos os demais trabalhadores que não trabalham nas agências, embora estes dêem todo o suporte necessário para a viabilidade do serviço de captação, como, por exemplo, análise de documentos para contratação de crédito imobiliário, etc.
Portanto, não são os nomes das funções que determinam o que o bancário faz, mas é o que ele faz é que determina os nomes, por mais que os banqueiros e o governo digam o contrário. Por isso, que os meios de captação nas agências executados por nós SÃO SERVIÇOS DE INTERMEDIAÇÃO FINANCEIRA e que nós bancários SOMOS PRESTADORES DE SERVIÇOS, SIM.
3.2. O que está por trás do assédio para a contratação de serviços bancários (fidelização)

Com o desenvolvimento do sistema financeiro, combinado com o processo de concentração de capital na forma de uma tendência ao oligopólio (domínio do mercado por um grupo restrito de empresas) é muito comum que as instituições financeiras façam algum teatro de uma fictícia concorrência, como se houvesse diferenças entre os serviços que oferecem. No setor bancário, as formas de captação são exatamente iguais. Os serviços existentes em cada banco são os mesmos oferecidos por todos os outros. Toda e qualquer instituição financeira oferece títulos de capitalização, seguros, planos de previdência, consórcio, investimentos, etc, etc, etc. Todos os dias somos assediados para “vender” esses “produtos”, bater metas (muitas vezes pelos métodos mais questionáveis e ilegais) para alavancar os resultados do banco. Mas se observarmos bem, os resultados financeiros advindos da prestação destes serviços são bastante modestos.
Vejamos os seguintes números:
“No terceiro trimestre de 2010, a participação dos produtos de seguridade nos lucros do Bradesco foi de 29%, no Itaú Unibanco esse número foi de 13%. No Banco do Brasil, a participação também é de 13%.” (Fonte: Brasil Econômico – 17/11/2010 - http://www.blog.leonseg.com.br/seguros-elevam-lucro-dos-bancos/)
Ou ainda:
“O Bradesco é o banco que prioriza a atividade de seguros e previdência com mais ênfase dentro do sistema financeiro e por isso tem o maior ganho entre seus concorrentes. As seguradoras de bancos como BB, Itaú e Caixa, por exemplo, apresentam, em média, ganho equivalente a 10% do total consolidado do conglomerado.”(http://vocesa.abril.com.br/blog/seguro-sa/2011/01/.)
O grosso do lucro dos bancos provém da concessão de crédito. Coloca-se assim uma pergunta óbvia: por que massacrar os bancários com metas “inúteis” de venda tendo em vista que o impacto da contratação de tais serviços nos lucros bancários é muito pequeno?
O objetivo do banco com a prestação de tais serviços não é diretamente a captação de recursos, mas a fidelização dos correntistas. Tendo em vista que é muito fácil abrir e fechar conta-corrente, ou então, que é possível ter contas em diversos bancos, os serviços de captação fazem com que os clientes mantenham um vínculo mais forte com os bancos que oferecem tais serviços. Ao contratar um seguro ou título de previdência com determinado banco, o cliente mantém uma relação mais estreita com este banco, concentrando seus recursos, viabilizando a captação de recursos por um longo tempo. Por exemplo, a “venda” de um título da capitalização em 48 mensalidades transforma o cliente numa fonte permanente de captação de recursos por 4 anos com uma única simples assinatura do correntista. Com isso, o banco pode especular para obter lucros no mercado de crédito ou ainda na bolsa. O raciocínio serve para os demais serviços de captação prestados por nós bancários, dentro das características peculiares de cada serviço.
Assim, o que está por trás de toda e qualquer meta é transformar cada correntista em uma fonte mais duradoura possível de recursos, também conhecido pelo simpático nome de “fidelização”. Mas na verdade trata-se de lançar ao cliente diversos grilhões para servir aos bancos. O lucro não está no serviço de captação em si, mas o que se faz com o resultado dele no ato do recebimento dos juros dos empréstimos concedidos
Vejamos a seguir as principais formas de captação dos banqueiros, bem como as suas peculiaridades.

3.3. Título de capitalização;

Trata-se de um contrato bancário em que o correntista se compromete a fazer depósitos periódicos (mas pode ser depósito único também) na instituição financeira e em troca, concorre a prêmios em dinheiro, como se fosse uma loteria. Caso o correntista não seja sorteado até o final do plano contratado, ele receberá, ou não, o valor corrigido apenas pela TR, isto é, uma rentabilidade menor do que a poupança. Torna-se evidente que o atrativo do plano só poder ser a POSSIBLIDADE de ser sorteado para ganhar uma bolada em dinheiro, pois como investimento é um péssimo negócio.
O fato dos depósitos serem corrigidos apenas pela TR faz com que sejamos diariamente bombardeados com metas envolvendo este tipo de contrato. Afinal, o dinheiro que é captado via capitalização é usado para que o banqueiro empreste a juros exorbitantes. Ademais, o Título de Capitalização tem sua liquidez bastante reduzida em comparação com a poupança. Os planos costumam desencorajar a desistência do correntista antes do final do prazo retendo parte dos depósitos efetuados. Por exemplo, num plano de 36 depósitos mensais, caso o correntista queira sair do plano depois de, digamos, 15 meses, tendo efetuado 15 depósitos, ele não vai receber de volta o total que depositou, mas, por exemplo, apenas levantará o equivalente à 10 depósitos. Desta forma, por meio dessas cláusulas de retenção, os bancos “convencem” os correntistas a ficarem até o final do plano. Na poupança, ao contrário, o correntista faz os depósitos quando quiser, saca quando quiser e o quanto puder, e permanece com a conta até quando quiser. Os bancos têm muito menos controle sobre os correntistas através da poupança, o que faz do título de capitalização uma de suas alternativas preferidas de captação de recursos. A pressão pela venda desses títulos é uma das fontes de tantos adoecimentos da categoria.

3.4. Seguros;

Trata-se de um contrato de serviços em que o segurado se compromete a pagar uma mensalidade chamada de prêmio à seguradora, para que receba alguma indenização, caso haja algum sinistro com o bem segurado, que pode ser bem diverso (vida, automóvel, imóveis, etc). Em outras palavras: o pagamento do prêmio é certo, mas a indenização não. A seguradora cobra como prêmio um valor suficiente para cobrir as despesas de pagamento de sinistros, suas despesas administrativas, e auferir ainda uma margem de lucro. Além do mais, as seguradoras lançam mão da “franquia”, uma taxa que deve ser paga pelo segurado para fazer uso da indenização, como forma de dificultar o pagamento da indenização. A franquia nada mais é do que a participação do segurado no pagamento de sua própria indenização.
Hoje, o mercado de seguros se desenvolveu tanto a ponto de poder mapear as possibilidades de risco a partir das características individuais do bem segurado e os hábitos de vida da pessoa do segurado. Conforme for o maior a possibilidade de sinistro, maior é o prêmio que o segurado deverá pagar.
Esta forma de captação pelos bancos é ainda mais vantajosa, pois os banqueiros não tem de dar satisfação ao segurado com o que faz com os recursos recebidos como prêmio (enquanto que no título de capitalização, há o compromisso de devolver o valor depositado pelo correntista, ainda que parcialmente) . Findo o prazo do contrato de seguro e não tendo acontecido sinistro algum, o banco não tem a obrigação de devolver os valores pagos como prêmio. Ou ainda, se houver um sinistro, a indenização somente será efetuada se o segurado pagar a tal franquia.
Uma vez que os pagamentos dos prêmios são a única certeza neste tipo de contrato, o banco não tem obrigação alguma de dar satisfação sobre os recursos recebidos dos segurados. Se o banco quiser especular na bolsa, pode. Se quiser emprestar a juros exorbitantes, também pode. Se quiser dar 152% de aumento para os diretores da instituição financeira (como aconteceu no BB no início da década de 2000, quando o funcionalismo já sofria com 6 anos de congelamento salarial) também pode.
É por todas estas vantagens para os bancos é que somos obrigados a cumprir metas interplanetárias de contratação de seguro. O lucro obtido com este tipo de contrato é irrisório frente o lucro conseguido com os juros dos empréstimos. Por ser praticamente de graça a captação de recursos, os seguros também são fontes de adoecimentos dos bancários .

3.5. Previdência Privada;

Primeiramente, só há mercado para planos de previdência privada por conta da conveniente falência da previdência pública. Empreende-se um ataque ideológico permanente sobre a previdência pública com a afirmação falsa de que há um “rombo da previdência”, que seria o resultado do aumento vertiginoso do número de beneficiários. Mas na verdade, tal rombo tem como origem o desvio de recursos da previdência para pagamento de juros da dívida pública, sem mencionar o fato de que o Estado não dá a sua contrapartida na contribuição da Seguridade Social como está determinado na Constituição. Por outro lado, a mesma mídia que propaga a mentira do “rombo da previdência” omite a informação que as próprias estatais, assim como os bancos privados, estão entre as maiores devedoras do INSS. Os cinco maiores bancos privados do país, “Bradesco, Itaú, Unibanco, Santander e ABN-Amro Real devem, juntos, R$ 135,9 milhões. Os dois maiores bancos estatais (Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal) são responsáveis por R$ 293,6 milhões em dívidas” (Folha de São Paulo de 17/05/2009).
Assim, o mercado para o plano de previdência privada a partir de uma suposta falência da previdência pública é convenientemente criado de maneira artificial pelo Estado. Feitas estas considerações, passemos a estudar o plano de previdência privada.
Diferentemente da previdência pública, em que a geração de trabalhadores que estão na ativa banca a aposentadoria da geração anterior de trabalhadores que já estão inativos, no plano de previdência privada o cliente banca a sua própria aposentadoria por meio da formação de uma poupança de reserva. A reserva formada pelos depósitos do cliente é investido pelos bancos, geralmente em aplicações de longo prazo, como títulos públicos ou ações de primeira linha. Os recursos depositados são administrados pelos bancos de acordo com o permitido no contrato e com o gosto do cliente.
Até o início da década de 2000, os planos eram de Benefício Definido, isto é, os bancos se responsabilizavam por garantir o valor da pensão contratado no final de um período longo (de 20 a 30 anos, por exemplo). Depois, com a mudança muito conveniente em favor dos bancos, só passou a ser oferecido o PGBL (Plano Gerador de Benefícios Livres) e do VGBL (Vida Gerador de Benefícios Livres), que se diferenciam entre si apenas pelo regime tributário. O termo “Livre” significa “livre de responsabilidades com o cliente”. Desde então, nestas novas modalidades de plano, a única coisa certa é a contribuição do cliente, e os bancos não tem qualquer responsabilidade de garantir a pensão do beneficiário caso haja problemas de ordem conjuntural, como queda da bolsa, ou desvalorização dos títulos públicos. Em outras palavras: os bancos transferiram o ônus da administração dos recursos para os clientes.
Diferentemente dos seguros, aqui os bancos têm que prestar contas do dinheiro depositado pelos clientes. Ao conseguir o fim do modelo de benefício definido, os bancos obtém liberdade para lidar com os recursos e se desresponsabilizar por eventuais prejuízos. Via de regra, os depósitos são aplicados em fundos de renda fixa, fundo de ações, ou ainda em fundos mistos (mescla de renda fixa com ações). Todo o dinheiro suado do trabalhador é torrado na especulação com papéis do mercado financeiro. E por incrível que pareça, os bancos ainda cobram uma taxa de administração por esse serviço, a qual é descontada do patrimônio do fundo (que geralmente é milionário), mas que é rateada entre os felizes poupadores dos planos.
Por ser um contrato de longo prazo, o título de capitalização é um excelente produto para “fidelização” do correntista, isto é, torna-se mais difícil a quebra do vínculo do cliente com o banco. Um plano de 20 anos, por exemplo, garante que este mesmo correntista, ao longo de todos esses anos, se endivide no cartão de crédito, no cheque especial, faça financiamentos, etc, etc. O cliente pode até optar por usar o montante do dinheiro depositado no plano de previdência antes do vencimento do plano, ou seja, resgatar a reserva antes da aposentadoria, mas as alíquotas de IR incidentes no ato do saque desencorajam tais possibilidades. Ademais, o cliente não pode fazer quantos saques forem necessários. Sempre há um período longo permitido entre um saque e outro (6 meses, por exemplo).

3.6.Consórcio;

O consórcio não é uma fonte de captação tão interessante quanto as opções anteriores, exceto pelo fato de também ser um contrato de longo prazo. Consórcio nada mais é do que uma associação de pessoas para adquirir um bem, de forma parcelada, porém sem pagar juros. É isso que os administradores chamam de “produto”. Tendo em vista que um grupo de consórcio autônomo é inviável do ponto de vista legal e burocrático, os bancos cedem toda a sua estrutura para formação mais prática e simplificada de grupos e cobram uma taxa para isso.
As pessoas do grupo contribuem periodicamente até formar um montante mínimo para aquisição do bem. A partir daí, o integrante recebe o bem por uma das duas hipóteses: 1-por meio de sorteio, ou 2-por meio de um lance (tal e qual um leilão). Tanto num caso quanto no outro, o consorciado, embora com o bem em posse, pagará o saldo parceladamente sem juros.
Como visto, o consórcio é um contrato que a pessoa não tem pressa para receber o bem. Na cabeça do cliente é como se estivesse fazendo uma poupança vinculada à compra do bem desejado (um automóvel, por exemplo)

3.7. Ainda sobre os serviços bancários

Acabamos de desdobrar em linhas gerais os “produtos” mais comuns no meio bancário, mas explicá-las de forma sistemática ainda não caracteriza os bancários como bancários. Nosso serviço, de maneira simplificada, se resume a captar recursos para cedê-los cobrando o juro. Agora veremos de forma mais inequívoca, que os ‘produtos” não são produtos. A diferença entre um produto e um serviço é que no produto a relação entre comprador e vendedor se encerra com a transação de compra-venda. No serviço, há uma série de desdobramentos práticos que seguem se desenrolando depois da celebração do contrato, de modo que a relação se prolonga no tempo.
No meio financeiro, cada “produto” vendido cria uma relação que torna possível a prestação continuada de diversos serviços para a manutenção de cada contratação específica. Ao “vender” um título da capitalização, podem-se criar uma série de demandas como saque parcial, encerramento prematuro do contrato, etc. Sobre os seguros o cliente pode fazer endosso, pode aumentar ou reduzir a base de cobertura, etc. Na previdência privada, o cliente pode aumentar ou reduzir o prazo de contribuição, aumentar ou diminuir a contribuição, fazer contribuição esporádica, pode até suspender e sacar a reserva monetária, etc. Para cada conta aberta, haverá a possibilidade de aumento ou redução de limite de cheque especial, por exemplo, ou contratação de cartão de crédito, e assim por diante, etc, etc...
Diante de todas essas possibilidades, a quem o cliente procurará nas agências bancárias, senão o bancários para executar cada um destes serviços? O “vendedor”? Não. O BANCÁRIO. Cada contrato celebrado entre o banco e o cliente implica necessariamente numa série de serviços que o circundam, serviços esses que terão que ser prestados por uma categoria específica de trabalhadores, que são os bancários. É necessário ter alguém de carne e osso para executar esses serviços. Assim, cada contrato firmado implica mais serviços a ser executados por nós, bancários. Significa que o ato de assinar um contrato de seguro, abertura de conta corrente, capitalização, etc... é, na verdade, o INÍCIO de uma relação comercial-financeira com os clientes e não o seu final. Para cada “produto” vendido surgirá um cliente que procurará a agência bancária para executar algum serviço correlato com o contrato.
Certamente não é o empregado do comércio e/ou correspondentes bancários que executará esses serviços. É justamente por isso que os banqueiros e o governo se esforçam tanto para nos convencer que somos vendedores, pois tal discurso esconde o fato de que cada contrato firmado demanda uma série de serviços para a sua manutenção, que justificaria a contratação de mais bancários e redução da jornada de trabalho.

IV - CONCLUSÃO.

Como se nota, a idéia de que o bancário é vendedor e de que os serviços prestados nos bancos são “produtos” não resiste ao menor questionamento de seus fundamentos. Vimos que os trabalhadores bancários são sim prestadores de serviços de intermediação financeira, o que permite que os bancos captem recursos junto à sua base de clientes (evidentemente que não computamos aqui os recursos públicos jorrados do erário). Em outras palavras: é o bancário de, um modo geral, que é a força motriz do movimento da mercadoria dinheiro em DD’.
No entanto, os banqueiros e o Estado fazem uma verdadeira campanha ideológica sobre a categoria para nos convencer de que bancário é vendedor de “produtos”. Mais do que subestimar a nossa inteligência, os patrões querem, pelo menos, três coisas: 1-que percamos a identidade enquanto categoria para assim criar um cenário subjetivo para: 2- retirar direitos, reduzir o nível dos salários; e 3-promover uma luta fraticida de todos contra todos, intensificando o estranhamento entre os colegas de trabalho e a divisão da categoria.
Reconhecer esses pontos traz algumas conseqüências importantes para nossa luta e organização:
A principal delas é a mudança no eixo das campanhas salariais. Devemos lutar por salário, não por remuneração variável.
Nas últimas campanhas salariais o grande chamariz tem sido a PLR. Merecemos uma fatia do lucro dos bancos que tanto trabalhamos para construir, por isso merecemos a PLR, e lutamos que seja linear, ou seja, para que a parcela do lucro do banco seja dividida em partes iguais para todos os trabalhadores, da diretoria aos escriturários. Mas a nossa campanha salarial não pode ser uma campanha por PLR. O acordo da PLR deve ser negociado em separado e fora do período de campanha salarial. A idéia de que o objetivo da campanha salarial é uma PLR maior legitima o próprio discurso do banco: o trabalhador deve vender mais, para que o banco tenha um lucro maior, para que o próprio trabalhador tenha uma PLR maior...
Ora, como acabamos de ver, o lucro dos bancos não depende necessariamente das vendas de produtos, mas de um relacionamento continuado com os clientes, que requer um trabalho permanente e bem feito de atendimento, o qual buscamos fazer, mesmo em péssimas condições. Por isso merecemos salários maiores!
O índice que reajusta o salário é o mesmo que reajusta todas as demais verbas e benefícios, como 13º, férias, FGTS, INSS, vale-refeição e alimentação, etc. Além disso, por lei, o salário não pode ser rebaixado: uma vez reajustado, não pode haver redução. Ou seja, aquilo que conquistamos numa campanha salarial tem resultados de longo prazo, com influência em toda nossa vida, até a aposentadoria.
Por isso reafirmamos: nossa luta é por salário!
Além do salário, precisamos de outras conquistas que valorizem o nosso trabalho:
- Garantia de emprego e estabilidade para toda a categoria;
- Plano de cargos e salários, que valorize a dedicação e a permanência dos trabalhadores na empresa;
- Contratação de mais trabalhadores para atender a demanda;
- Fim das terceirizações e dos correspondentes bancários;

Chamamos todos os bancários do país a se organizar a partir dessas idéias. Discuta com seus colegas, organize-se, movimente-se!
Junte-se a nós nessa luta!

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